Por que essa revolta toda com Girlboss?

Desde que a série Girlboss estreou na Netflix eu vejo constantemente textos problematizando a personagem Sophia falando sobre o quanto ela é uma pessoa ruim, sobre o quanto é errado a gente se identificar com ela, pessoas até falando para outras não assistirem e o pior é que até agora todos os que eu li vieram de autoras. Eu acho muito errado isso tudo.

É verdade que na série a personagem de Sophia Amoruso é interpretada como uma menina totalmente sem noção, que rouba tapetes enormes e ninguém corre atrás dela (porque todo mundo achou bizarro ela roubar, mas acharam normal o cara dizer “ah ta você não vai pagar” e ficar na dele? OI?), que não está nem aí com a vida e que é um tanto egoistinha sim. E eu digo que provavelmente não seria amiga dela, a menos que fosse uma amizade à distância onde é possível curtir somente a parte mais legal dela, fashion, divertida. Acontece que se olharmos para o nosso passado antes de sermos “AS DESCONSTRUIDONAS”, provavelmente éramos daquela que adoravam ser classificadas como “a pra casar” e achávamos que tínhamos “inimigas” que era qualquer mulher que supostamente não era nossa amiga. Ou seja, éramos tão ou mais escrota que a jovem Sophia.

Acontece que personagens criados a partir de uma pessoa real têm seus defeitos. Muito mais defeitos que qualidades. E esta personagem feminina FELIZMENTE não é – por mais que chegue bem perto, no limite – mais uma Manic Pixie Dream Girl. Felizmente Sophia é uma pessoa de verdade que criou um grande negócio do ZERO, que enfrentou medos e desafios para poder chegar onde ela chegou. Espero que saibam reconhecer esse ponto.

Girlboss ponte

Um dos maiores argumentos que estão usando é que por ela ser branca e o pai ter dinheiro essa série fala sobre meritocracia. Se você acha isso assistiu errado, assiste de novo até entender ok?

Ok sabemos MUITO BEM já que a população negra tem bem menos oportunidade que a população branca especialmente se tratando dos Estados Unidos onde ainda há segregação de “bairro negro”, “bairro latino”, “bairro branco” bem ao estilo AQUI É SEU LUGAR NÃO ULTRAPASSE A LINHA. Porém em momento algum foi dito que as pessoas não têm sucesso porque “elas não querem”. Mais uma vez, a série conta a história de como a Sophia, uma garota que até queria algo que a fizesse se sentir realizada e ganhar dinheiro com isso conseguiu o que ela queria a partir de uma ideia que surgiu do nada depois de ela comprar uma jaqueta por 9 dólares e vender a mesma por mais de 600. Se você acha isso injusto, não venda suas coisas por lances no Ebay. Simples né?

sophia

O que mais me deixa consternada é que esse hate todo para cima dela não só prova uma teoria de que mulheres são mais inimigas do que amigas umas das outras, como também tenta encaixar a personagem Sophia dentro dos padrões esperados para uma mulher: o da fofinha, da mocinha que é firme porém simpática, a legalzinha, a que é amiguxa de todo mundo. Essas mesmas características que estão nela, se fossem em um homem,seria um #LIKEABOSS. Como é em uma mulher é a #BITCH NÃO SEJAM COMO ELA!

Por mais que eu ache que ninguém deva realmente ser como ela em especial nos primeiros episódios, todos já fomos como ela ou mesmo piores. Todos tivemos atitudes cretinas. Nem por isso alguém saiu fazendo 5 MOTIVOS PARA NÃO GOSTAR DE MIM.

Gostaria ainda de puxar aqui um exemplo que eu adoro usar que é do Mark Zuckerberg, o CEO da rede social que o povo mais ama, o Facebook. Não sei se você já leu sobre ele ou se já assistiu o filme A Rede Social, mas o Mark é mil vezes pior que a Sophia.

Quando a namorada terminou com ele, o pobrezinho Mark a expôs e humilhou em um blog onde grande parte da faculdade onde ele estudava acessava. Depois ele tomou um porre e criou o Hot or Not onde comparava meninas em uma competição no mínimo animalesca (isso que ele queria comparar a BICHOS mas “achou melhor não”). Daí ele foi contratado e PAGO para criar uma rede social toda elaborada. Essa rede era tipo o Facebook só que claro, um pouco diferente. Então ele pagou todo mundo lindamente, menos o amigo dele quem co-criou o Facebook, quem teve que processar o tio Mark para obter uma parte minimamente justa pelo trabalho dele. Não só isso, Mark sai comprando todas as redes que fazem sucesso e quando o Snapchat se negou a vender o produto para o Mark ele colocou history em TODAS as redes dele (tipo o Kiko querendo ostentar, sabe?). Estas atitudes dele foram bem piores do que a Sophia dizer para a Annie que ela não tinha lugar na Nasty Gal (e depois voltou atrás) e não to vendo NINGUÉM escrevendo 5 motivos para não usar o Facebook que tenha a ver com as atitudes escrotas do Mark. Aliás, estão divulgando os mesmos posts anti-Sophia NO FACEBOOK ne?

figured

Me incomoda demais essa luta tão extrema para problematizar qualquer coisa. Essa necessidade de estereotipar as mulheres vindas das próprias mulheres. Essa luta contra uma personagem ainda imatura que vai mostrando sua evolução nos últimos episódios da primeira temporada (tem muito mais do que isso, viu?). É como um rolo compressor que TEM QUE ESMAGAR QUALQUER UM NO MATTER WHAT.

“Ai Sophia não tem respeito pelos outros”

E você tem com esse monte de julgamentos pra cima dela sequer reconhecendo que você provavelmente já foi (ou ainda É) assim?

Nós mal temos representatividade feminina nas telas e quando temos as próprias mulheres são as primeiras a esmagar?

“Não seja como a Sophia, não seja como Miranda Priestly”

SEJAMOS SIM amiguinhas. Porque se um homem tiver a mesma oportunidade de nos pisar, esmagar e cuspir no que restou de nós, ele VAI fazer. Então obviamente não é legal puxar tapete de ninguém, mas quando se trata de uma questão de sobrevivência e isso inclui a carreira, ninguém é amiguinho de ninguém. Se eu tivesse entendido isso antes, não estaria na situação que me encontro hoje. E não adianta dizer que você é amiguinha de todo mundo esculachando pessoas que você sequer conhece só porque a Netflix a retratou assim (já parou para pensar que ela pode ser BEM diferente?). Todo mundo só é amiguinho de quem é seu amiguinho. Nada de novo no front.

Por fim, nem acredito que tem gente que defende  o grupo Vintage que se reuniu para atacar a loja da Nasty Gal e o pobrezinho do namorado dela que desde o primeiro dia já chegou com negging dizendo que a bota dela era ridícula. Eu já teria dado um adeus ali, mas não me surpreendi muito depois dela ter continuado com ela depois de ter visto o cara traindo ela. Além disso, ela tinha um negócio rolando sozinho e ela tinha que cuidar. Quando ela pegou o celular e disse que ela tinha ganhado mais 400 dólares ele já disse “NADA DE TRABALHO AQUI” mas 5 minutos depois ele podia trabalhar sem problemas pedindo um táxi para um cara que não sabia comprar o próprio estoque de Claritin D. Depois ele surtou por causa de umas batatas fritas e disse muita m*rda para ela. E estão reclamando do que? De ela ter metralhado m*rda de volta.

Vocês não acham que a gente já sofre demais com violência verbal dos namorados, ainda acham que precisamos abaixar a cabeça? Isso não é muito machista da sua parte? Spoiler: É SIM. Eles estavam em uma briga, ele tentou ofendê-la, ela é boa em insulto então insultou também. Pronto, tava tudo ok. Mas o que algumas pessoas não entenderam ainda é que nunca se tratou da batata frita, nunca se tratou de ser “você faz o que você quer”. Sempre se tratou de “eu ralo que nem um condenado e a MINHA NAMORADA ganha MAIS QUE EU ficando NO COMPUTADOR!”. Bem emasculador, não é? ESTE era o problema do Shane. Fora ser um traidor cretino.

Precisamos dar mais apoio para esses exemplos que nos mostram evolução de pessoas reais. Que não criam um personagem só que tem a mesma personalidade, a mesma cara, a mesma “maluquice” do começo ao fim. Ninguém é assim, então nossos exemplos não deveriam ser assim.

Se quer falar mal de um personagem real de uma série e sugerir que a pessoa não seja como ele, eu sugiro Narcos. Acho que nem preciso explicar os motivos.

Beijo grande ❤

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